Da entrada na Maternidade até ao momento mais feliz da minha vida
Subimos até à Maternidade. Toda eu me contraía. As contracções não me largavam, acabava uma e começava logo outra. Mal tinha tempo para recuperar.
Entrei para o gabinete, uma médica fez-me o toque. 1 dedo. Eu sabia que tinha que chegar aos 10, bolas, tanto tempo e só tinha 1? Vim para o corredor. Mantive-me em pé, andava de um lado para o outro. As pessoas olhavam para mim com ar solidário. O Marido pouco podia fazer, aliás quanto menos falasse comigo melhor, porque eu já mal respirava quanto mais falar.
Mais ou menos 30 minutos depois entrei outra vez para novo toque. 3 dedos. A médica diz que vou fazer dilatação rápida e manda depilarem-me. Dão-me o clíster e a bata e wc comigo. Que bom foi saír do wc com pessoas no corredor e eu de rabo à mostra!
Deviam ser perto das 19h, fui para a sala de dilatação. Estavam lá duas. Uma gritava, berrava. As enfermeiras berravam com ela. Assustei-me.
Puseram-me o ctg e mandaram o marido saír. Que simpáticas. Disse-lhe para ligar para os meus Pais.
A outra não parava de gritar e eu e a que estava ao meu lado olhávamos uma para a outra e contorciamo-nos silenciosamente aquando de cada contracção. Passado pouco tempo a que gritava saíu para a sala de partos e teve a sua menina. Silêncio.
Os Maridos lá foram autorizados a entrar. Eu sabia que o meu estava farto de chatear um enfermeiro para entrar. LOL. Deviam ser uma 19h30 quando vêm fazer o toque novamente. Primeiro à outra, depois a mim. 3 dedos e meio. Se quer levar epidural tem de ser agora porque vou jantar. Ainda não sei. Não queria levar, acha que ainda demora muito? Você só tem o bébé lá para a madrugada. Tem a noite toda pela frente. Disseram o mesmo à outra que decidiu levar e foi-lhe administrada. Depois foi a minha vez, acedi perante o cenário de uma noite inteira assim, tive medo de perder forças. As dores eram insuportáveis e deitada na cama não me podia pôr como queria.
A anestesista demorou uns 30 minutos ou mais comigo. Comecei deitada. Toda eu tremia. Mandou-me sentar e a enfermeira segurou-me as pernas. Refilou que eu era muito magra, tinha os ossos da coluna muito salientes. Francamente. Acabou já passava das 20h. O maridão entrou. O cheiro a frango era insuportável. As enfermeiras deviam estar a jantar. Eu já estava bem, já não sentia dores, as contracções lá continuavam mas eu só sabia porque acusava no ctg.
Por volta das 20h30 sinto algo estranho. Uma vontade tremenda de evacuar, de fazer força. Afinal o que diziam da vontade de fazer força ser igual é mesmo verdade. Digo ao Marido para chamar a enfermeira, que algo se estava a passar.
Ela entra a rabujar, coitada, interrompemos o jantar. Viu a outra primeiro embora tenha sido eu a chamá-la e segue para a sala de parto. Vê-me a mim e sala de parto comigo.
É agora. Eu estava radiante. Não sabia o que me esperava, mas só pensava no meu Pestinca que finalmente ia conhecê-lo, cheirá-lo, senti-lo. O Marido pede para assistir. Recebeu um Não. A simpatia abundava.
Entrei já a outra estava numa cadeira e a gritar, estava vermelha e transpirada. Sentei-me na "minha" e agarrei-me aos ferros de suporte que tinha de lado. O suporte do lado direito estava partido, pelo que não fez efeito nenhum e o meu corpo escorregava para baixo pois não conseguia segurar-me em lado nenhum.
A enfermeira gritava comigo para eu não caír e me segurar. Eu gritava de volta que o suporte estava partido e não conseguia. Toda a minha tranquilidade desvaneceu, toda a serenidade que eu ansiava no momento que iria conhecer o meu filho foi-se....o que eu tinha idealizado não estava a acontecer com aquela bruta insensível...
Entretanto a outra à minha frente tinha uma médica a fazer-lhe o parto. Vi os fórceps e vi a bébé nascer. Tudo isto não facilitou em nada a minha concentração. Podiam ter tido a decência de ter fechado a cortina. Mas a simpatia continuava a reinar. O relógio marcava 21h15.
Eu já não sabia o que fazer mais, sem suporte para o braço direito, sem onde agarrar, não era fácil. E a epidural tirou-me a sensibilidade de onde fazer força. E as minhas pernas tremiam e de que maneira. A enfermeira chamou a médica e trocaram de lugar. Entrou uma auxiliar estagiária que ao ouvir-me berrar pela milésima vez que não tinha culpa de escorregar porque a cadeira estava partida, me ofereceu os braços dela para agarrar. Foi a única pessoa simpática que conheci durante a minha estadia naquele hospital. Era difícil ter de fazer força para o meu corpo não escorregar e fazer força para expulsar o Peste. Ainda por cima eram duas forças contraditórias, uma anti-gravítica e a outra não.
Às 21h25 nasceu. Foi puxado com ventosa, até hoje não sei a razão porquê. Na altura não me disseram nada. Só soube no dia seguinte quando vi escrito no berço dele e ninguém sabia responder porquê, a médica não estava de serviço...a simpatia abundava...
21h25, 4º feira, 29/09/04 aconteceu o milagre por que eu ansiava. Tinha tido o meu filho. Que alívio aquando da expulsão, que alívio sentir todo o seu corpo saír de dentro de mim. A primeira coisa que perguntei foi porque ele não chorava, tinha a ideia de que mal nascessem os bébés choravam. Assustei-me, mas foi por nem dois segundos pois ele acusou logo ter bons pulmões!
Que magia tê-lo em cima de mim, olhá-lo nos olhos, acariciar a sua pele e dizer-lhe as primeiras palavras "Halló, littla krútti pútt, ég er Mamma thín, littli ormurinn minn".....traduzido à letra "Olá, fofinho pequenino, sou a tua Mãe, meu minhoquinho"...
Senti o corte e costura mas nada interessava.............nada me tiraria, nem tira aquele momento, aqueles instantes. Eram momentos nossos e eu desejei tanto que o Pai ali estivesse para partilhá-lo....o que ele perdeu, aqueles instantes, os primeiros momentos fora do meu ventre...
3.390kg, um lindo e belo rapaz. Limpinho, pouco cabelo, claro, olho azul. Perfeito. Foi um recém-nascido bonito. Mesmo muito bonito. É um menino bonito.
Levaram-no para aquecer e eu fiquei em pânico. Trataram de mim e só queria que se despachassem para ir ter com ele. Passei no corredor. Vi toda a gente. O Maridão a primeira coisa que me diz é que o D. é lindo e parecido comigo. A minha Mãe diz que é igual a mim quando nasci. Toda eu rebentava de orgulho e sorria para todo mundo. Não podia estar mais feliz. Já nem me lembrava da brutidão com que fui tratada momentos antes. Nada interessava já. Tinha o meu bem mais precioso e queria-o ao pé de mim.
Fui para o quarto e trouxeram-no para mamar. Ele não pegou. Uma enfermeira veio ver se tinha leite, sem perguntar nada apertou-me a mama. Tinha leite sim. A teoria dela era que os rapazes eram muito preguiçosos para mamar. Estúpida. Foi buscar um mamilo de silicone e pô-lo no meu peito. Ele mamou. Eu triste e ela toda contente porque a sua teoria estava certa. Estúpida. Eu na minha santa ignorância e inexperiência de primeira vez, com as hormonas e o cansaço ao rubro de ter acabado de passar por um parto, deixei-a fazer aquilo. Bem que insisti para ele aprender a pegar no mamilo depois disso, mas ele simplesmente não mamava. E adormecia logo, com ou sem mamilo. A amamentação em exclusivo foi sol de pouca dura infelizmente. Tenho de atribuir alguma culpa às enfermeiras daquele hospital. Podiam ter-me auxiliado mais, podiam ter sido mais simpáticas, as coisas podiam ter corrido melhor. Da minha parte, lamento a inexperiência, a vulnerabilidade e o cansaço.
Levaram-no outra vez para o berçário para aquecer, limpar e vestir. Já era meia-noite. Eu pedia a toda a alminha que me tirassem o soro. Não podia ser. Mas porquê? Já nem deita nada, o saco está vazio, tirem-me isto por favor. Foi a parte que mais me custou durante todo o trabalho de parto, foi colocarem o soro e ter de ficar com aquilo. O tempo passava. Por volta das 2 da manhã levanto-me para ir buscar o meu filho já que nunca mais mo traziam. Quase que desmaiei e caí em cima da cama. Uma auxiliar que estava a passar diz-me que não me posso levantar assim sózinha. Mas eu quero o meu filho, porque não mo trazem? Só o trazem depois de ter tomado banho e ter andado pelo seu pé. Ahhhh, porque não me disseram isso logo?
Mais um pouco e fui tomar banho. Não quero sequer relatar aqui a nojeira que são aquelas casas-de-banho.
Trouxeram-no para ao pé de mim e fiquei acordada o resto da noite a olhar para ele. Deitei-o ao pé de mim, queria senti-lo, queria protegê-lo, queria que ele se sentisse amado, protegido, acarinhado, queria que ele me sentisse, afinal passámos 39 semanas e 5 dias juntinhos e tínhamos sido separados. No dia seguinte de manhã ouvi uns belos comentários do mal que estava a fazer com ele na minha cama, que ia habituá-lo mal, etc, etc, etc.
Mas o que é que têm a ver com isso? Habituá-lo mal? Nunca tinha ouvido disparate maior. Farei o que achar melhor para ele e para mim. Sempre foi assim. Sempre será assim. Nem respondi a tais absurdos comentários como é óbvio. Eu estava noutra dimensão. Estava apaixonada!
Na 6ª feira, dia 1/10 suplicava para ir para casa, Era o dia do meu aniversário e o último local onde o queria passar era ali. Só fui para casa no sábado antes de almoço. Chorei grande parte da minha estadia no hospital. O D. também. Berrava dia e noite e isso não se alterou nos primeiros meses de vida dele.
Mais tarde descobri que era um bébé irritável. Foram meses muito complicados, mas o que preservou a minha sanidade mental foi ele sempre dormir bem e longos períodos de noite. De dia se dormisse 20 minutos de cada vez era muito. O resto do tempo ou estava a comer (e comia tanto....aliás ainda come) ou estava a berrar!
O tempo que passei naquela maternidade foi horrível. Jamais terei lá outro filho. Esta decisão foi tomada ainda durante a estadia. O que vale foi eu ter aguentado até às últimas em casa até ir para lá e que entre o dar entrada na maternidade e ele nascer, passaram somente 3 horas. Ao menos isso!
É incrível que quando o vi pela primeira vez, quando o olhei nos olhinhos, quando o senti, não estranhei. Ele era exactamente como eu tinha imaginado e embora fosse a primeira vez que o visse, parecia que o conhecia desde sempre.
E foi assim que terminou a minha primeira gravidez e começou uma nova etapa na minha vida. A mais feliz e preenchida até agora.
Amo-te tanto, tanto, tanto Pestinca!