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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O Peste foi operado hoje

Às 8h chegámos ao Hospital. O Peste estava bem disposto e preparado para o que se seguia. Sabia tudo o que ia acontecer e que ia pôr tubinhos nos ouvidos. Retiraram também os adenoides, mas essa parte não lhe expliquei, acho que era demasiado abstracto e complicado de explicar.

Às 8h20 chamam-nos para ir para o quarto. A ele e outra menina de 8 anos que ia ser operada ao mesmo. A Rita (Educadora de Infância) sentou-os na cama lado a lado e explicou-lhes o que se iria passar. Um espectáculo ela, querida, simpática, alegre! O Peste estava bem e explicou-lhe que estava ali para pôr tubinhos nos ouvidos. Eu estava a controlar-me....mas as lágrimas estavam a ameaçar....isto é duro para o coração de uma Mãe.

Após esta conversa/preparação vestiram os pijamas do Hospital e fomos para uma salinha cheia de jogos, livros e com TV perto do bloco à espera da chamada. Por esta altura os meus nervos ganharam e já não me sentia capaz de esconder, estava a rebentar e chamei o Pai e fui para a sala de espera deixar caír as lágrimas....tinha de as soltar. Poucos minutos depois o Pai chama. Estava na hora. A Rita diz ao Peste para ir com a enfermeira soprar no balão da máscara e que quando acordar a Mãe ou o Pai estão ao pé dele. Isto foi tudo tão rápido que eu nem me apercebi que ele estava a ir com ela e eu já não o ia ver mais até ao final da operação. E quando me apercebi, desatei num pranto à frente de tudo e de todos. É que eu disse ao Peste que ia estar com ele até adormecer....senti-me tão mal, tão mal, só me apetecia vomitar....mas o Maridão e a Rita lá me acalmaram, mas ninguém me tira o sentimento de culpa...

Foi angustiante aquela meia hora, 40 minutos....dei maminha ao Tomás para garantir que ele estivesse bem para quando o David acordasse eu estar ao pé dele.

Às 9h20 oiço lá dentro alguém dizer "David" e fui a correr. O Dr. disse-me que tinha corrido muito bem e que ele tinha uns adenoides enormes. A enfermeira vestia-me a bata e disse que ele estava acordo a chamar por mim e eu fui a correr nem sei para onde, só queria ir ter com ele...lá me indicaram a porta, nem deixei que me acabassem de vestir a bata....só ouvia: " a Mãe...a Mãe" queria lá eu saber da bata...

Não é fácil descrever o cenário, vi o meu filho como nunca o vi...deitado numa cama, a gemer, contorcia o corpo todo, completamente desorientado...abracei-o, beijei-o mas ele não parava de se mexer na cama, os olhos fechados, a choramingar...sentei-me na cadeira com ele ao colo. Assim, abraçada a ele, a falar-lhe e ele a sentir o meu batimento cardíaco era mais fácil de acalmá-lo. Mas ele mexia, contorcia-se tanto que foi preciso muita força e ginástica para o ter bem seguro ao meu colo. E lá chorava, gemia, acalmava e depois começava tudo de novo.
Normalíssimo, diziam as enfermeiras.

Quando finalmente consegui que ele me respondesse e vi que ele percebia o que eu dizia, fiquei aliviada. Vi que ele estava bem e já reagia. Parece-me que ele acalmou quando percebeu que estava ao meu colo e que eu estava ali. Repeti vezes sem conta que a Mãe estava ali, o Pai, o mano e a Amma estavam lá fora. Que ele estava no Hospital, que tinha sido operado.

Depois lá falou e a 1ª coisa que disse foi: "quero ir para casa..".
Sossegou e adormeceu no meu colo, um sono bem profundo e assim ficou mais de meia hora.

Perdi um pouco a noção das horas mas deviam ser 11h e pouco quando fomos para o quarto (o inicial). Passei-o para a cama e ele acordou e ficou muito assustado. Não pude largar a mão dele até chegarmos ao quarto tal era o medo dele que eu fosse embora.


(Dai com o ursinho que assistiu à operação)

Ficámos no quarto até perto das 13h altura em que teve alta e viemos para casa. Houve grande choradeira quando lhe retiraram o tubo da veia canalizada porque lhe doeu. Queixou-se muito de dores de garganta, aliás ainda se queixa, custa-lhe a engolir. Lemos os livros todos e jogámos os jogos todos que havia no quarto.

Agora são 3 dias de dieta líquida e frios. Após estes pode começar a comer massinhas bem cozidas, frango desfiado, mas tudo à temperatura ambiente até ser visto dia 11. Ao 3º dia pode lavar o cabelo, com algodão embebido em vaselina nos ouvidos. Estes 3 dias não pode saltar, correr, enfim estar quieto e sossegado (quero ver como vai ser, ai quero, se hoje já se pôs a correr e a saltar!).

Hoje bebeu 1 iogurte líquido, comeu 1 gelado, 1 iogurte, deu 4 goles de um sumo e comeu meio prato de papa. Não está mal! Está tão bem educado que diz que não pode comer muitos gelados senão faz dores de barriga e cáries LOL!

Portou-se que nem um Homem o meu Peste!
Eu, eu não quero passar por isto NUNCA mais!


Adenda: acordou (23h) a chorar...tossiu e saíu um pouco de sangue (ele não viu). Chorou, chorou com a boca cheia de saliva. Ele teima em não engolir, foi assim o dia todo, cospe a saliva na sanita, mas agora ensonado nem cuspir queria....chorou e mais tossiu....aproveitámos para dar os xaropes e foi um drama! Mas lá conseguimos e lá adormeceu novamente com a boca cheia de saliva...espera-nos uma longa noite...

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A (des)vantagem de uma sala heterogénea

Talvez nem tenha aprendido com um menino maior. Talvez tenha sido com um da sua idade. Talvez até tenha sido fruto da sua própria imaginação, mas quando oiço o meu filho dizer estas palavras para o Afi:

Já não gosto mais de ti. Vou buscar uma faca e cortar-te.

Parte-se me o coração. Fere a minha alma e o meu espírito. Quem me conhece e aqui quem me lê assuidamente sabe que não lido bem com violência. Seja de que género for. Não lido mesmo.
Após uns segundos de digestão destas infelizes palavras que saíram da boca de meu pequeno filho, pergunto-lhe quem o ensinou a dizer uma coisa tão má.

Foi a Amma.

Responde prontamente. Pura mentira e explico-lhe que é muito feio mentir* , a Amma é muito boa e amiga e nunca ensinaria uma coisa dessas. A minha Mãe é tal e qual a mim, ou eu a ela, quanto menos tivermos de lidar com mentiras, injustiças ou violência, melhor. Queremos distância. Em duas frases apenas o meu filho conseguiu proferir duas das coisas que mais abomino: violência e mentira. Doeu e muito. Ainda doí. Digo-lhe:

Sabes que se tivesses uma faca e cortasses o Afi ias magoá-lo muito. Ias fazer-lhe uma ferida muito grande e ia deitar muito sangue e o Afi teria de ir para o Hospital...

O meu Pai rematou:

E depois o Afi não podia brincar contigo...

Vi no seu olhar que as nossas palavras o atingiram. Vi o seu corpo minúsculo ficar ainda mais pequeno e pareceu estremecer. Não emanou nem uma palavra. Deve ter digerido bem que o acto que tinha dito teria uma consequência muito grave. Segundos depois disse ao Afi:

Já gosto de ti outra vez. E tu gostas de mim Afi?

Onde é que ele aprende isto? Porquê? Para quê? É novo demais para dizer coisas destas. Coisas que ele nem sabe a proporção que têm. Sinto-me tão miserável por não o proteger destas nocividades. Mas como? Como o faço? Espero não voltar a ouvir tamanha barbaridade saír da sua inocente boca....

* bem que li num artigo da Pais&Filhos que segundo estudos recentes os bébés a partir dos 6 meses já mentem (obviamente que não sabem as consequências que têm, são inocentes só no sentido de se satisfazerem). Pensava-se (e eu também) que era a partir dos 4 anos. O meu filho com 3 anos já mente e esta não foi a primeira vez.